
F. Basaglia — Ideologia e prática em tema de saúde mental (1975)
Publicado em Scritti (1953–1980). Milão: Il Saggiatore, 2017. Tradução por Iago Martins.
F. Basaglia
Agradeço o convite que me foi feito para realizar minha conferência em uma sede tão prestigiada como a Universidade de Roma, dado que trabalho no manicômio, lugar não muito prestigiado.
Sei que foram convidados para estes seminários outros palestrantes que atuam no âmbito da psiquiatria de modo tradicionalmente asséptico, onde domina o discurso técnico, fora de qualquer problemática político-social. Hoje nos encontramos, de fato, por um lado, perante pessoas que se consideram “cientistas” e, por outro, técnicos que propõem uma série de problemáticas que levam em conta as implicações políticas presentes em cada intervenção técnica. A separação ainda é clara e, além disso, estes últimos são acusados de baixa credibilidade científica. Contudo, seria importante compreender o que é a “ciência” que é tão vigorosamente defendida pelos “cientistas”.
Começarei falando do ensino da psiquiatria. Essa disciplina é atualmente ensinada em lugares como este, a Universidade. Mas aqui não se pode ensiná-la, aqui se ensinam palavras. O estudante hoje não pode conhecer nada da psiquiatria, porque não conhece a prática psiquiátrica. Ele aprende apenas as definições com as quais classifica a esquizofrenia, a psicose maníaco-depressiva, a histeria e por aí vai. Quando se torna médico e na sua clínica (ambulatório) recebe um “louco”, a única coisa que sabe fazer é manda-lo diretamente ao manicômio, se for pobre, ou para uma clínica de recuperação, se puder pagá-la. A nossa universidade é absolutamente incapaz de formar médicos que saibam identificar e responder às necessidades do homem em sofrimento, porque ele não as conhece de forma alguma. É preciso, então, sair da universidade e ir ao manicômio ou à rua para ver os doentes, conhecê-los, entender seus problemas. O estudante também deve ser instruído sobre a prevenção da doença, porque o que se faz — e mal — é curar a doença quando esta já eclodiu, mas não se sabe o que significa preveni-la, criar as condições para preveni-la, nem se sabe nada sobre conservar a saúde.
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