F. Basaglia — A liberdade comunitária como alternativa à regressão institucional (1966)

Publicado em Che cos’ è la psichiatria. Torino: Einaudi, 1973. Tradução por Bruno D. Bianchi

Em 1952, um número especial do Esprit foi dedicado ao tema “A miséria da psiquiatria” e colaboraram os psiquiatras franceses que, desde então, vinham se empenhando na busca de um novo modo de abordagem institucional do doente mental. Em um artigo sobre a “Condição do doente no hospital psiquiátrico”, de L. Le Guillant e L. Bonnafè, se lê: “A condição dos doentes no hospital psiquiátrico não parece ser o efeito de alguma ‘maldição’… Se esses doentes são tratados com mais severidade do que os outros… É, em última análise, porque trata-se de doentes sem defesa, sem voz e sem direitos. Os alienados são (aos olhos da classe dominante) os negros, os indígenas, os judeus, os proletários dos outros doentes. Assim como eles, são vítimas de um certo número de preconceitos e de injustiças. Preconceitos e injustiças que, em todo caso, não dizem respeito à natureza da loucura”.

Na Itália, até hoje, uma lei antiga, incerta entre a assistência e a segurança, a piedade e o medo, continua a estabelecer os limites além dos quais se cruza a fronteira entre o cidadão que tem — perante a sociedade — o direito de ser defendido e o doente que, só como tal, perde esse direito, porque passa a fazer parte das fileiras daqueles de quem a sociedade deseja se defender.