M. Calviño — Linguagem e Diagnóstico da Personalidade (1988)

Publicado em II Encuentro Latinoamericano de Psicología Marxista y Psicoanálisis. Vol. 3. La Habana, feb. 1988, pp. 19–22. Tradução por Bruno Bianchi.

O diagnóstico da personalidade se direcionou nos últimos anos por uma linha estreitamente associada aos procedimentos indiretos que tem como fonte primária de informação o dito pelo sujeito, o expressado em termos de linguagem. As técnicas de quantificação de traços, condutas, etc., cederam espaço a outras, nas quais a análise do conteúdo, em sua acepção geral, é instituída como via preferida de penetração no conhecimento das orientações, tendências e peculiaridades psicológicas da personalidade. A linguagem, oral e escrita, sempre em termos de palavras “ditas” pelo sujeito, se converteu em um campo prioritário de análise psicológica.

Em sentido geral, o dar prioridade à linguagem como campo de estudo do psíquico não é de forma alguma errado. Lembremos que entre as teses básicas da Psicologia Marxista está a consideração da linguagem como constituinte fundamental da consciência, seu significador e estruturador. Não são casuais as afirmações acerca da natureza semântica da estrutura da consciência, ou a necessidade dos métodos semânticos na investigação psicológica.

No entanto, para podermos avançar em nosso problema, devemos distinguir a linguagem como meio de assimilação, de estruturação do psíquico, momento este em que se destaca o problema da determinação sócio-histórica e cultural do psiquismo humano, e a linguagem como o lugar onde se revelam certas particularidades da constituição psicológica, subjetiva, de um sujeito concreto. O primeiro momento fundamenta o segundo, mas são diferenciáveis. É, supostamente, no segundo sentido em que a linguagem se torna espaço de análise para o diagnóstico psicológico da personalidade, em particular para o diagnóstico da individualidade, daquilo que dá à personalidade seu matiz diferencial.