
Y. Clot — Vigotski com Spinoza, além de Freud (2015)
Publicado em Revue philosophique de la France et de l’étranger, v. 2, 2015, pp. 205–224. Tradução por Bruno Bianchi.
Y. Clot
Sem dúvida, devemos começar corrigindo a imagem persistente de um Lev Vigotski voltado para a aprendizagem escolar impulsionada pela vontade de outros antes de ser impulsionado pela sua própria[1]. É um quadro que torna invisível o que é sem dúvida a essência deste trabalho, e que foi claramente formulado na Teoria das Emoções em 1931: a história do desenvolvimento do sujeito não é regulada por um livre arbítrio intelectual livre de afetos. Vigotski se opõe à ilusão mantida por Descartes: a vontade não pode administrar “as paixões à maneira do navegador cujo navio está danificado” (1931/1998, p. 331). Ele criticou Lange, para quem “o sinal mais óbvio de cultura é aquele autocontrole calmo com o qual os golpes do destino são suportados, causando explosões desenfreadas de paixão em pessoas sem instrução” (ibid., p. 247) e para quem não havia dúvida: “o desenvolvimento histórico do psiquismo humano conduz ao desaparecimento das emoções” (ibid., p. 247). Pelo contrário, para o psicólogo russo, é necessário explicar como “não apenas a capacidade de sofrer, de se alegrar e de ter medo não desaparece como um fenômeno acidental e anormal, mas como ela cresce e se desenvolve com a história da humanidade e o desenvolvimento da vida interior do homem” (ibid., p. 245). Pois “são precisamente as paixões que constituem o fenômeno fundamental da natureza humana” (ibid., p 267). É por isso que seu programa de 1931 é inequívoco: “Nosso objetivo é criar até mesmo os primeiros fundamentos de uma teoria psicológica dos afetos […] digna de se tornar um dos capítulos da psicologia humana, talvez até mesmo seu capítulo principal” (p. 155).
Para isso, e justamente porque, em sua opinião, não há antagonismo entre a vida intelectual e a vida afetiva do homem, Vigotski procura se apoiar em uma “grande ideia filosófica”: acreditamos, escreve ele, correndo o risco de criar expectativas exageradas, que a teoria spinozista das paixões é tão “sólida e afiada” que resistirá ao teste dos problemas a serem enfrentados na psicologia e “os resolverá como um diamante corta o vidro” (p. 157). Esse é, sem dúvida, o motivo pelo qual há mais de dez referências a Spinoza em A História do Desenvolvimento das Funções Psicológicas Superiores (Vigotski, 1931/2014), escrito na mesma época e, já como um exórdio à Psicologia da Arte de 1924 (Vigotski, 1925/2005), a citação clássica de Spinoza: “Ninguém, é verdade, determinou até agora o que o corpo pode fazer” (Spinoza, 1677/1964, p. 137)[2].
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