
J. Fraser & A. Yasnitsky — Desconstruindo a narrativa de vitimização de Vigotski (2015)
Publicado em History of the Human Sciences, vol. 28, n. 2, 2015, pp. 128–153. Tradução por Guilherme Henrique.
J. Fraser; A. Yasnitsky
Ainda que muitas facetas da vida de Lev Vigotski (1896–1934) tenham atraído considerável atenção dos historiadores da ciência, talvez a característica mais popular de sua narrativa pessoal tenha sido que ele foi ativamente reprimido pelo governo stalinista, com seu trabalho sendo colocado sob uma forçada proibição de publicação que persistiria por um período de quase 20 anos após sua morte. Referências a essa proibição infame permeiam relatos contemporâneos sobre Vigotski — quase todos eles enfatizando que no período de 1936 a 1956, era proibido discutir ou divulgar qualquer obra de Vigotski dentro da União Soviética. De acordo com essas narrativas, foi somente após a morte de Stalin em 1953 que as ideias de Vigotski puderam ressurgir na Rússia, quando uma rede de seus colaboradores e associados começou a circular seus princípios centrais no final da década de 1950, que se deve supostamente à primeira publicação pós-stalinista das obras de Vigotski em 1956.
No sentido mais geral, todo acervo bibliográfico que, de forma variada, se concentra em Lev Vigotski e seu legado científico pode ser referido como “Estudos sobre Vigotski”. Dificilmente um campo independente de conhecimento, esses “Estudos sobre Vigotski” são fundamentados e alimentados por várias tradições acadêmicas um pouco mais canônicas, como psicologia e educação, história da União Soviética e da Rússia e história das ciências humanas. Existem diferenças notáveis entre todos esses subcampos disciplinares, e estamos plenamente conscientes dos perigos da simplificação excessiva, mas, para simplificar, eles serão chamados de “psicologia” e “história”, e seus agentes serão descritos como “psicólogos” e “historiadores” respectivamente. Assim, pode ser instrutivo traçar um esboço da história inicial da narrativa da “proibição de Vigotski”, como é apresentada em várias publicações sobre Vigotski, no Ocidente e no Oriente. A história da recepção e da construção social da história de vida de Vigotski e seu legado ainda não foi escrita, e tal empreitada está definitivamente fora do escopo deste artigo. No entanto, acreditamos que algumas tentativas de generalização são possíveis mesmo neste estágio inicial e que este artigo contribui para as primeiras tentativas de entender o “mito de Vigotski” à medida que circula em um contexto internacional contemporâneo.
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