
G. Lukács — A Dança da morte das ideologias (1933)
Publicado em Intellettuali e Irrazionalismo. Pisa: ETS, 1984. Tradução por Bruno Bianchi.
G. Lukács
O grande romance de Robert Musil, ainda inacabado[1], constitui um paradigma da ideologia da elite intelectual alemã que até agora analisamos em geral, ou seja, aquela parte desta intelectualidade que não pretende — pelo menos conscientemente — fazer concessões à fascistização geral da vida espiritual na Alemanha. Em sua carreira como escritor, não há concessão ao gosto do público em geral, às tendências dominantes da moda. Ele sempre foi um escritor comprometido para a elite, para os “pouco felizes” stendhalianos. Ele zomba constantemente da forma cultural e literária em que encontra — e que imediatamente conheceremos mais de perto — a maioria das tendências dominantes entre os intelectuais e na literatura. Ele sempre se opôs aos seus contemporâneos também no plano estilístico: ele não participou nem da confusão impressionista nem da afetação expressionista da prosa alemã; escreve num estilo quase cientificamente transparente, claro, simples e equilibrado daqueles que estão familiarizados com os clássicos, apesar da grande plasticidade das suas figuras e descrições. É também por isso que ele nunca se tornou popular. Especialmente com seu último romance, porém, ele se tornou uma celebridade “esotérica” para os iniciados, para a vanguarda espiritual da intelligentsia esquerdista dos anos antes da tomada do poder por Hitler.
A cientificidade do seu estilo não é algo externo. Musil difere da maioria de seus contemporâneos e colegas de classe em que, no período do imperialismo e da fascistização, não participou do crescente desprezo da filosofia da vida pelo intelecto. Recusa-se a aceitar o impraticável, quer ter sempre terreno sólido debaixo dos pés; é um racionalista. A peculiaridade do tema literário e, portanto, do método criativo de Musil consiste antes no fato de que com esta visão de mundo [Weltanschauung] e com este método ele aborda os problemas espirituais da elite intelectual de hoje. Com os métodos de uma ciência exata, como ele a entende, ele quer verificar que coerência íntima e que conteúdo de verdade estes problemas espirituais contêm. Ele é, portanto, um experimentador muito preciso, um engenheiro que racionaliza as emoções mais refinadas da elite intelectual contemporânea. Nada escapa a suas críticas agudas, não há nada que ele considere tão sagrado e indemonstrável a ponto de não o submeter à análise mais exata.
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