V.V. Nikolaeva & G.A. Arina — Psicologia clínica da corporeidade (2009)

Publicado em Psychology in Russia: State of the Art, 2009, pp. 441-456. Tradução por Bruno D. Bianchi

Há duas tendências principais no desenvolvimento da psicologia clínica russa no século XX. Uma delas é a separação gradual e sucessiva da medicina, que inclui a delimitação e a especificação do objeto de pesquisa psicológica e suas atividades práticas. A outra é a diferenciação dos campos distintos dentro da psicologia clínica por meio da expansão dos problemas e da descrição de novos fenômenos clínicos, incluindo aqueles que nunca foram estudados (Poliakov, 1995).

Consequentemente, um novo campo da psicologia clínica está sendo desenvolvido intensamente. Esse novo campo é chamado de psicologia da corporeidade e teve origem no desenvolvimento anterior da abordagem psicossomática na medicina. Mas o tema e a direção dos estudos psicológicos em psicologia da corporeidade não são os mesmos que os tradicionais na medicina psicossomática (Engel e Schmale, 1967; Sifneos, 1973).

O desenvolvimento da psicologia da corporeidade no âmbito da medicina determinou o círculo de fenômenos clínicos nos quais a gênese e a dinâmica dos fatores psicológicos desempenham um papel muito importante. A inclusão do problema mente-corpo na corrente principal da medicina geral significa que o termo “psicossomática” passou a se referir inteiramente à área da psicopatologia. O simples uso do conceito é agora interpretado como uma indicação inequívoca da presença de fenômenos psicopatológicos no corpo humano, secundários aos efeitos de fatores psicológicos patogênicos. Tal abordagem, contudo, coloca uma vasta gama de fenômenos psicossomáticos em condições normais fora do alcance da análise científica (Tkhostov, 2002). A existência de tais fenômenos em seres humanos normais dificilmente pode ser posta em dúvida: basta mencionar as condições bastante familiares aos psicólogos, quando uma pessoa é capaz de mobilizar consideráveis ​​recursos físicos e mentais em uma situação que exige a resolução de uma tarefa difícil e de grande responsabilidade, ou em casos de desorganização afetiva com componentes físicos acentuados.