A. Pardi — Política, tratamento e controle social (2003)

Publicado em Aperture, n. 14–15, Rome, 2003, pp. 130–139. Tradução por Bruno D. Bianchi.

O conceito de saúde tem uma natureza social. As teses científicas adquirem um particular “efeito de realidade” à medida que codificam normas existentes e são incorporadas em práticas e instituições. Os campos em que a função social da afirmação/proteção da norma é mais evidente são a ciência da mente, a psicologia, e a clínica da mente, a psiquiatria. A relação entre ideologia, política e medicina se destaca porque a relação entre a crise da norma social e o rompimento do vínculo que funda a instituição é imediata: o louco é aquele que rompe os esquemas culturais, comportamentais e sociais, introduzindo o estranho onde existe o equilíbrio aparente de uma ordem social[1].

A lógica sobre a qual a psiquiatria foi fundada é uma lógica aversiva, que opõe saúde à doença, o louco à sociedade, a norma à transgressão. A prática psiquiátrica é funcional à repressão de um conflito que afeta o bios da sociedade: a marginalidade e a diversidade dos loucos são opostas e alternativas à verdade, coerência e validade da regra compartilhada. Papéis e práticas vêm como consequência.

É mérito do movimento então chamado de “antipsiquiatria” que assumiu esse conflito e compreendeu seus termos. O movimento antipsiquiátrico nasce em meados da década de 1960 e se desenvolveu em vários países europeus, Espanha, Inglaterra, Estados Unidos e Itália.