A. Pirella — Psiquiatria, repressão, luta de classes (1976)

Publicado em La salud de los trabajadores. Ciudad de México: Editorial Nueva Imagem, 1978, pp. 153-160. Tradução por Bruno D. Bianchi

Considero que o aparato psiquiátrico, em uma sociedade dividida em classes e caracterizado por profundos desequilíbrios e desigualdades, está em grande medida submetido ao modelo estatal do tipo repressivo-autoritário analisado por Lênin e no qual os médicos e os estratos relativamente privilegiados de pequenos burgueses assumem papéis “acima do povo”. Em seu conjunto, as análises, as denúncias, as iniciativas e as lutas oriundas dos hospitais psiquiátricos compõem um quadro geral no qual a repressão e a violência se convertem em fato institucionalizado e não episódico ou acidental.

Que isso aconteça diante de um fato que chamamos de “doença mental” ou comportamentos de rebeldia juvenil, ou mesmo em sujeitos simplesmente necessitados de assistência (de 20 a 30% dos internados em hospitais psiquiátricos tem sessenta anos de idade) é relativamente pouco importante porque as análises, as denúncias e as lutas neste campo mostraram que o que une esses homens e os leva a tolerar a gestão repressiva do aparato psiquiátrico não está em seu comportamento e muito menos em seu cérebro, mas, por um lado, em sua não-funcionalidade em relação à sociedade dividida em classes e, por outro lado, na necessidade do aparato burocrático-repressivo de fornecer uma cobertura científica à repressão pura e simples. Caso contrário, não se compreenderia o motivo pelo qual, por exemplo, o alcoolismo atualmente é considerado uma doença a ser curada, um comportamento a ser reprimido psiquiatricamente, um delito a ser castigado por normas e códigos. Por parte do aparato burocrático-repressivo, a funcionalidade social é alcançada por meio da imobilidade institucional. As manifestações humanas das contradições sociais devem ser reduzidas ao silêncio.