
S. L. Rubinstein — O Princípio da Auto-Atividade Criadora (1922)
Publicado em Voprosi Psikhologi, n. 84, 1986, pp. 101–108. Tradução por Bruno D. Bianchi.
S.L. Rubinstein
“Diga-me, Sócrates, a virtude pode ser aprendida?” — O Menon de Platão começa com esta pergunta, e este é o mesmo tema de Protágoras. A resposta negativa que o Sócrates de Platão dá a esta questão torna-se particularmente paradoxal devido ao fato de esta tese se combinar com outra, segundo a qual a virtude é conhecimento, e se apoia no conhecimento: a virtude é conhecimento, e ao mesmo tempo a virtude não pode ser ensinada.
O conhecimento em si também não é ensinável — mesmo que por ensino entendamos a transferência e recepção mecânica em forma pronta da “sabedoria” apresentada. O caráter paradoxal da tese inicial revela assim a necessidade de uma definição diferente do próprio conceito de ensino e uma reforma da relação que ele expressa. Nas fórmulas platônicas: o conhecimento não se transmite como se fosse derramado de um recipiente para outro (Banquete 175D); aprender significa encontrá-lo em si mesmo (Teeteto, 150D), dominar o próprio conhecimento de si mesmo (Fédon, 75F).
O mais novo movimento na pedagogia levou ao renascimento desta posição da pedagogia socrático-platônica. O ensino é concebido como uma investigação conjunta: em vez de uma comunicação dogmática e recepção mecânica de resultados acabados, há uma travessia conjunta do caminho de descoberta e investigação que leva a esses resultados. O sistema, que se baseava na percepção passiva dos resultados acabados, na cópia de determinados modelos, uma mera receptividade inativa e infrutífera, deve ser substituído por um sistema cuja base e objetivo seja o desenvolvimento da auto-atividade criadora [tvorcheskoi samodeiatelnosti]. A pedagogia moderna busca construir o processo e todo o sistema educacional com base na auto-atividade criativa do sujeito. A legitimidade desta tentativa e, portanto, o destino da pedagogia construída sobre o princípio da auto-atividade criativa depende, no entanto, da solução de um problema filosófico radical. Este artigo é dedicado ao esclarecimento desse problema.
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