P. Varela — A Reprodução Social em disputa (2020)

Publicado em Archivos de historia del movimiento obrero y la izquierda, VIII, nº 16, mar./ago. 2020, pp. 71–92. Tradução por Bruno Bianchi.

Em abril de 2019, a revista Radical Philosophy publicou um dossiê chamado Teoria da Reprodução Social, cuja apresentação foi escrita por Silvia Federici, e seu conteúdo está dirigido, basicamente, a uma polemização com a visão marxista da Teoria da Reprodução Social (TRS) por meio da crítica ao livro de Tithi Bhattacharya, Social Reproduction Theory: Remapping Class, Recentering Opression[1]. O artigo que concentra os argumentos teóricos é o de Alessandra Mezzadri, On the value of social reproduction, motivo pelo qual me basearei nele para elaborar uma “crítica da crítica”[2] e propor uma leitura da Teoria da Reprodução Social enquanto teoria da relação entre produção e reprodução na sociedade capitalista.

O artigo de Mezzadri possui três virtudes. A primeira é que coloca explicitamente algo que vinha pairando no ar, mas que não se expressava de forma aberta: que há uma disputa teórico-política em relação ao que nos referimos quando falamos de “reprodução social”, e que os concorrentes dessa disputa são dois: a visão autonomista e a visão marxista da reprodução social. Uma, representada na atualidade por Silvia Federici e outras teóricas; a outra, expressada (neste debate) no livro compilado por Bhattacharya, o qual retoma o enfoque de Lise Vogel e conta com contribuições de teóricas contemporâneas como Susan Ferguson e Cinzia Arruzza (entre outras). A segunda virtude do artigo é que situa o núcleo do debate teórico onde deve estar: na definição do que é e que papel cumpre no capitalismo contemporâneo o trabalho de reprodução social, e qual é sua relação com o trabalho de produção de mercadorias, ou, para colocar em termos marxistas, com a produção de valor. Para isso, o artigo de Mezzadri recoloca o debate em suas origens: os desenvolvimentos de Mariarosa Dalla Costa e Selma James (1975), como teóricas fundantes da visão autonomista, e os desenvolvimentos de Vogel, como aquele que consegue elaborar o núcleo duro da visão marxista sobre o qual se baseiam as elaborações posteriores, e se concentra, particularmente, na definição de um ponto crucial: se o trabalho de reprodução social produz ou não produz valor. Esta discussão, que pode parecer quase um preciosismo (e que muitos criticaram nos anos 1970 por ser “demasiada abstrata”), cobra aqui toda sua centralidade. A terceira virtude é que Mezzadri estabelece com clareza qual é a consequência política de tal debate teórico: nem mais, nem menos, que a caracterização de quais são os terrenos da luta contra o capital, que são os sujeitos que tem que protagonizar e que papel desempenham as mulheres nesta luta. Em síntese, que formas políticas assume uma perspectiva que busca ultrapassar o capitalismo hoje.