L. S. Vigotski — Psicologia da Esquizofrenia (1933)

Publicado em Soviet Psychology, v. 26, nº 1, 1987, pp. 72–77. Tradução por Achilles Delari Junior.

Nos sintomas clínicos da esquizofrenia o psicólogo encontra um fenômeno extraordinário, praticamente incomparável, com relação a qualquer outro evento, um fenômeno que não pode ser comparado com nada previamente descrito. Ele é um caso extraordinário e incomparável de desenvolvimento psicológico e alteração da consciência e suas funções podem lançar luz sobre a organização normal da consciência. Mais importante, ele pode lançar luz sobre a organização normal das relações da consciência com suas funções e sobre seu curso normal de desenvolvimento. Neste sentido, o estudo psicológico da esquizofrenia talvez contenha uma chave para a compreensão de estrutura normal da consciência. Em todo caso, o estudo psicológico da esquizofrenia, o qual não está ainda suficientemente avançado, poderia nos habilitar a abordar a consciência humana normal do ponto de vista do experimento psicológico de laboratório.

A essência da novidade revelada pelos estudos clínicos da esquizofrenia para a análise psicológica da consciência normal e patológica pode ser explicada da melhor forma se nós colocamos a questão de como a relação da consciência com suas funções tem sido usualmente interpretada nas investigações psicológicas e psiquiátricas. Eu penso que não estaria equivocado se dissesse que ao longo da história da pesquisa psicológica e psiquiátrica, a consciência tem sido considerada como extrapolada de suas funções. Temos duas principais variantes na abordagem deste problema, se deixarmos de lado uma série de outras variantes com as quais nós não podemos lidar aqui, porque restringiriam nossos esforços a enumerar esquematicamente a essência da questão que temos em mãos.