B. V. Zeigarnik — Perturbações da Consciência (1986)

Publicado em Patopsikhologiya, Moscou: Izdatel’stvo Moskovskogo universiteta, 2016, pp. 61–71. Tradução por Bruno D. Bianchi.

As perturbações da consciência estão entre as questões menos desenvolvidas da psicopatologia. Apesar do fato de que todos os manuais de psiquiatria descrevem diversas formas de perturbação da consciência, é difícil definir o conceito. Isso ocorre porque o conceito de consciência na psiquiatria não se baseia em uma interpretação filosófica ou psicológica.

A consciência pode ser considerada em diferentes aspectos. Na filosofia, ela tem um significado amplo, usado em termos de contraste entre o ideal e o material (como secundário e primário), em termos de origem (uma propriedade da matéria altamente organizada) e em termos de reflexão [otrazheniya] (como reflexo do mundo objetivo).

Em um sentido mais restrito, a consciência é um reflexo humano do ser, um reflexo em formas socialmente desenvolvidas do ideal. O marxismo associa o surgimento da consciência humana ao surgimento do trabalho no processo de transformação do macaco em ser humano. A exposição à natureza no curso da atividade de trabalho coletivo deu origem a uma consciência das propriedades e das relações regulares dos fenômenos, que foi consolidada na linguagem, formada no processo de comunicação. No trabalho e na comunicação real, surgiu a autoconsciência — a consciência da própria relação com o ambiente natural e social, a compreensão do próprio lugar no sistema de relações sociais. A especificidade da reflexão humana sobre a existência é que “a consciência humana não apenas reflete o mundo objetivo, mas também o cria”[1].